quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Catolicismo, Cerveja e Cigarro: União perfeita

DE MUITOS DEVE ser a dúvida pós-revolução "jujuba": o consumo do álcool e do tabaco é pecado? Resposta: Não. Muito obrigado, até a próxima!

Só isso? Sinceramente eu queria que sim, mas algumas coisas precisam ser trazidas à luz. Se olharmos para a história pós-descobrimento das Américas, veremos que já existiram muitas dúvidas sobre a postura pecaminosa diante de certos hábitos adquiridos com os povos estrangeiros. E uma das controvérsias foi sobre adivinhe o quê? Isso mesmo, o café!

Bento XVI comemorando seu aniversário

Sim, o hábito de ingerir café foi aprendido dos maometanos. Muitos clérigos achavam que o café era uma invenção satânica (diziam isso por causa dos efeitos da cafeína, sobretudo em excesso, no corpo humano). Diz a tradição que, após alguns sacerdotes italianos insistirem que o papa Clemente VIII proibisse o consumo de café, este provou a bebida e, logo após, disse: O café é tão bom que não podemos deixá-lo para Satanás!

Isso aconteceu na época de Clemente VIII com o café e, por uma infantilização da sociedade, acontece hoje com o tabaco e com o álcool. Evidentemente, já houve outras controvérsias sobre o uso do tabaco. Do que estou falando? Não, não é sobre o fumo, mas sobre mascar tabaco antes e durante a celebração da Santa Missa. Na época, as pessoas viviam mais o primeiro Mandamento: amar a Deus acima de tudo. Isto mesmo: a Deus. Por isso estavam preocupados com a Liturgia e queriam saber se mascar tabaco era considerado uma quebra do jejum eucarístico. – Ah, quem dera fosse essa a preocupação dos cristãos de hoje!
Bento XVI enquanto cardeal

 “Mas fumar provoca câncer e beber a embriaguez, além de que ambos os produtos viciam”, dirá algum leitor. Acalme-se, vamos arrumar essa expressão: ingerir tabaco e álcoolem excesso pode provocar o vício e outros tipos de males. Ora, nesse caso, trata-se de idolatria (já que não se consegue manter o controle do hábito e põe-se a criatura, no caso o tabaco ou o álcool, como fim último), mas, veja que interessante, os mesmos que condenam o uso do tabaco e do álcool são desmesurados em muitas outras coisas, inclusive no vício da insensibilidade.
São João XXIII fumando

“Virtus in medium est”, disse Aristóteles; “a virtude está no meio”. No meio de quê? No meio termo entre dois vícios: A intemperança (ou gula) e a insensibilidade. A intemperança se dá quando se abusa de algo por excesso; a insensibilidade, quando se “abusa” da falta de algo, que é quando se trata a criatura como intrinsecamente má. Ora, isso é resquício de gnosticismo, uma parte dessa heresia que é combatida pela Igreja desde a era apostólica, vide a controvérsia da carne (conf. ICor 8; At 10, 14-15). Como disse Chesterton, “nenhum animal nunca inventou nada tão mau quanto a embriaguez – ou tão bom como a bebida”.

Este grande jornalista inglês (que também era um inglês muito grande), Gilbert Keith Chesterton, proclamado pelo Papa Pio XI Defensor da Fé Católica post mortem, também já dizia que na Igreja Católica o trago, o cachimbo e a Cruz podem andar juntos.
A regra sadia nessa questão parece ser a mesma de muitas outras regras saudáveis – um paradoxo. Beba por estar feliz, mas nunca por se sentir extremamente infeliz. Nunca beba quando estiver infeliz por não ter uma bebida, ou irá parecer um triste alcoólatra caído na calçada. Mas beba quando, mesmo sem a bebida, estaria feliz, e isso o tornará parecido com um risonho camponês italiano. Nunca beba por precisar disso, pois tal ato racional é o caminho para a morte e o inferno. Mas beba por não precisar disso, pois beber irracionalmente é a antiga fonte de saúde do mundo.
Monges Trapistas fabricando Cerveja

“Mas faz mal”, dizem alguns. Reproduzo aqui ipsis litterisas palavras de Sávio Breno, integrante do grupo "Escolástica da Depressão", que, em minha opinião são fundamentais: Fazer mal à saúde por si só não é o suficiente para tornar uma conduta pecaminosa. Fosse assim, ninguém poderia comer hambúrguer, beber refrigerante, morar numa grande metrópole ou mesmo jejuar.... São as circunstâncias desse dano à própria saúde que podem ou não o tornar ilícito (vários textos de bons autores católicos na internet explicam essas circunstâncias mais detalhadamente). O problema das drogas, na verdade é outro: a alteração de consciência que elas causam. O cigarro não causa esse tipo de alteração (o álcool só causa quando em excesso), portanto, em circunstâncias normais, seu uso é moralmente neutro. Ou seja, quem quiser dar uma de hobbit e praticar a "arte" da erva-de-cachimbo, pode fazê-lo sem peso na consciência.

Um último argumento que acho necessário tratar aqui é um que ouvi incontáveis vezes ao tratar de tal assunto: “Mas eu já tive problemas com bebida e cigarro”. Minha resposta a esse tipo de contestação é sempre a mesma: “e daí?”. Muito rude? Talvez. O problema é que nessa simples fala ('eu já tive problemas com bebida e cigarro"), em se tratando de normas de conduta de diversas pessoas, está subentendido que a regra de conduta é baseada naqueleindivíduo, nas suas experiências, dificuldades, limitações e opiniões. Ora, se formos seguir por este caminho, teríamos que afirmar que não existe nem moral, nem Magistério e nem nada que seja exterior ao sujeito (filosoficamente, vou tratar deste assunto num outro artigo para o movimento'Somar Para Vencer', onde tratarei da relação entre Ideologia e Senso Comum). Em suma, tal fala que visa ser regra para as ações de outros seres humanos é uma fala soberba e cátara (porque pressupõe que aquele indivíduo é puro, e todos os demais devem ser como ele).

Termino indicando a leitura do artigo "A Igreja Católica e o Tabagismo: Uma revisão histórica", que explica muito bem o assunto de um ponto de vista histórico. Indico também o artigo "O trago, o fumo e a Cruz podem andar juntos", do qual copio descaradamente o último parágrafo. Sendo assim, caro irmão católico, deixe de ser tacanha e protestante, e pare de julgar seus irmãos que nada estão fazendo de mal; tome uma taça de vinho, relaxe, ria, seja uma pessoa simpática e de bom convívio. O tacanhismo causa muito mais males à alma e ao corpo do que uma garrafa de cerveja trapista ou um fornilho cheio de Dunhill965.

Via: O Fiel Católico

6 comentários:

  1. Boa tarde,

    Achei brilhante as colocações e fundamentações apresentadas neste artigo e me possibilitou um olhar mais agigantado sobre o assunto em questão.

    Mesmo assim, gostaria de tecer alguns comentários frutos daquilo que a minha experiência nesta área me fez compreender e que vou compartilhar para contribuir de alguma forma este artigo esperando a resposta sobre a minha colocação e questionamento.

    Pois, foram falados inúmeras possibilidades para refutar a possibilidade de haver pecado no ato de fumar, beber e etc.. e como disse anteriormente em todas essas apresentadas foram elas perfeitamente refutadas. Porém foi esquecido, ou talvez passado desapercebido outro ponto que foi escancaradamente afirmado por São paulo ser pecado.

    Em sua primeira carta a Conríntios no capítulo 8 descreve ele o exemplo da carne aos ídolos e que a mesma em nada faz mal, é pecado etc. Ou seja, neste capítulo estaria toda fundamentação bíblica deste artigo até o versículo 6. A seguir todo este artigo bem fundamentado e brilhante como disse estaria refutado ao que me parece, pois veja o que diz são paulo: 7 Mas nem em todos há conhecimento; "porque alguns até agora comem, com consciência do ídolo, coisas sacrificadas ao ídolo; e a sua consciência, sendo fraca, fica contaminada." Neste caso são os fracos estão pecando e não são os fortes, ou aqueles que tem a devida consciência e equilíbrio. Porém antes de continuar quero fazer uso do próprio artigo que disse: "...fala que visa ser regra para as ações de outros seres humanos é uma fala soberba e cátara.." neste caso me pareceu este artigo se encaixar perfeitamente na própria ação que ele condena, exigindo que todos tenham a tal consciência que os fortes e intelectuais tem.
    Prossigo, naquilo que diz São Paulo aos fortes e intelectuais convertidos: Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos.
    Porque, se alguém te vir a ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do que é fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos?
    E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu.
    Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo."

    Ou seja, para um dependente químico a bebida, a droga é o seu ídolo. Ao passo que para esses irmãos ao olharem Bento XVI ou outros membros do clero e incluindo aqui os irmãos leigos que também são para esses referência da fé Católica, segurando em suas mãos o objeto de sua idolatria seria um ESCÂNDALO!!! Bem como ocasião de queda!!! Encaixando perfeitamente não somente Bento XVI mas todas as demais referências da fé católica em pedra de tropeço como nos afirma São Paulo. Ou estou enganado?

    --- segue a segunda parte abaixo aqui não tive a possibilidade de concluir por falta de espaço

    At, José Henrique Naegele

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  2. O pecado no caso da bebida, fumo e etc... evidente não acontece por natureza própria do uso para aquele que equilibradamente faz, como nos afirma de forma tão poética Chesterton e outros letrados, porém certamente é pecado para aqueles que são fracos e não tendo essa mesma consciência equilibrada caem. Neste caso vale a pena voltar a carta de São Paulo pois ele encerra essa questão de forma BRILHANTE DIZENDO PARA OS FORTES: "Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize. (1 Coríntios 8:13)
    Acho lindo quando ele coloca o limite da renuncia levando ela ao pé daquilo que deve ser o peso que o fraco carrega, ou seja, a condição de nunca mais poder beber, porque se ele beber estará arruinado. São Paulo então divide esse peso com o forte, para que ele seja uma luz de incentivo e esperança para o fraco ao qual por quem Cristo morreu.

    Me faz lembrar o Evangelho de João que diz: Não existe maior amor do que este: de alguém dar a própria vida por causa dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se praticais o que Eu vos mando. (João 15,13-14)
    Termino aqui, crendo não existir mais palavras a serem ditas.
    Aguardando uma resposta, meu fraterno abraço e apreço por este apostolado que sigo com muita admiração e respeito, mas que neste ponto eu discordo.

    At, José Henrique Naegele

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    1. Olá caro amigo, apenas para constar você tem razão em alguns aspectos, mas deve-se salientar que a publicação não incentiva ninguém a adquirir um vicio, mas pelo contrário mostra que o equilíbrio é o ponto de partida necessário para qualquer pessoa que gosta de beber e fumar. Mas apesar dos seus usos não serem pecados, podem se tornar dependendo da quantidade, isso acarreta na Gula ou no suicídio continuo, tudo depende da pessoa. Em relação ao escândalo, tens razão em fazer uma ponte com a passagem de São Paulo, mas não se compara um culto explicitamente pagão com caracter religioso a uma droga, pois a droga da Cerveja e do Tabaco tem um plano simplesmente material e não espiritual, por isso não deve ser levado ao mesmo patamar, se tem alguém que é viciado e é do seu conhecimento, por questão de prudencia não se deve fumar ou beber em sua presença, é uma questão de respeito. Finalizando em ambos os casos o respeito, equilíbrio e prudencia são as palavras chaves
      .

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  3. Espetacular o texto concordo com tudo, porém tenho uma restrição em relação ao cigarro, porque com o excesso de nicotina e drogas dentro de cada cigarro é quase impossível quem fuma ter o controle de parar quando quiser o vício se instala rapidamente no organismo, minha mãe tem efisema pulmonar e hoje vive presa em um galao de oxigênio, sempre quis parar de fumar mas o vício não permitiu, hoje vive de maneira limitada sem sair de casa. É muito difícil controlar o vicio do cigarro, já é diferente com a cerveja você pode ter esse controle. Mas parabéns texto incrível

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    1. Realmente é difícil, mas também depende do tipo do cigarro. Os cigarros populares tem outras substancias além da Nicotina que provocam doenças e dependência. Se olharmos os dados do seculo passado era difícil uma pessoa adoecer por causa do tabaco. Mas de toda forma é possível sim se libertar do vicio. Eu mesmo fumo de vez em quando, as vezes passo 3 a 4 meses sem fumar, e não tenho nenhuma dependência, mas cada pessoa sabe seu limite, se não suporta é melhor realmente para de vez, cada caso é um caso. No mais rezo pela recuperação de sua mãe.

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